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Padre Eustáquio  

PADRE EUSTÁQUIO NA CIDADE DE POÁ

 Padre Eustáquio

Trechos do livro sobre a sua vida e obra publicado em 2004–

a obra integral se encontra no site : www.padreeustaquio.com/historia.asp

 

O arcebispo queria o padre em São Paulo

Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, arcebispo metropolitano de São Paulo, com alguma freqüência, ia a Araxá ver seus familiares e de lá visitava o Santuário de Nossa Senhora da Abadia, em Romaria, onde conheceu Padre Eustáquio a quem todos os habitantes da zona do Alto Paranaíba enalteciam.

Com ele se encontrou várias vezes e, tendo percebido nele o sinal de Deus, solicitou sua presença em sua arquidiocese e, para tê-lo, prometeu à Congregação dos Sagrados Corações que criaria uma paróquia sob medida para ele, entre São Paulo e Mogi das Cruzes.

A região ainda apresentava muitas características rurais, mas já se encontrava em processo de promissor desenvolvimento, liderado por europeus oriundos de diferentes países e por outros migrantes que, no desejo de morar e trabalhar na capital paulista e adjacências, necessitavam da assistência e da influência de quem pudesse atendê-los com capacidade de entender os diferentes grupos sociais e seus componentes e auxiliá-los a caminhar para Deus, em harmonia.

Padre Eustáquio era obediente

Padre Eustáquio, reconhecendo que, segundo o costume da Congregação, precisava ser transferido da comunidade em que se encontrava havia quase dez anos, mesmo não desejando afastar-se dos campos do Triângulo Mineiro onde semeara e plantara, recebeu, com humildade, o convite do Arcebispo de São Paulo e acatou, com obediência, a decisão de sua família religiosa dos Sagrados Corações. Nem Dom José Gaspar nem a Congregação poderiam ter feito melhor escolha de modelo de espiritualidade e ação.

Porém não eram as mesmas nem a espiritualidade nem a aceitação por parte da população de Romaria, dos fiéis e dos romeiros que, no exercício de suas devoções e em suas estadas no Santuário de Nossa Senhora da Abadia, muito se afeiçoaram ao Padre Eustáquio, que se dedicara a eles, assistindo-os material e espiritualmente. Os que mais abalados ficaram com a transferência foram os enfermos e os necessitados.

A saída difícil

A comunidade de Romaria utilizou de todos os seus argumentos racionais para convencer os superiores da Congregação a não transferirem o Padre Eustáquio para a nova paróquia em São Paulo.

Nada conseguiram e recorreram à “estratégia da concordância”: simularam a aceitação da derrota de suas reivindicações e agiram como se estivessem aceitando a decisão dos padres. Prepararam uma grande manifestação de despedida, com sessões festivas, exibição de filme, apresentação de corais, discursos, peça de teatro e celebração de Missa Solene de Ação de Graças.

Os diversos padres da Congregação, que dias atrás já haviam chegado de Araguari e Patrocínio para ajudar a comunidade de Romaria a fazer a festa e, também, para se demonstrarem solidários com a transferência do Padre Eustáquio, ficaram felizes, pois tudo ocorreu em harmonia. O próprio Padre Eustáquio demonstrava-se satisfeito com o desfecho pacífico assim.

No entanto, enquanto as festividades aconteciam no entorno do santuário, todas as estradas de acesso a Romaria estavam guardadas e bloqueadas por homens fortes, dispostos a impedir a passagem do padre, caso ele tentasse sair da cidade, à noite, às escondidas, quando todas as manifestações festivas terminassem.

A reação popular foi eficiente. Ninguém saiu à noite, mas na manhã seguinte, nem o carro que deveria levar o padre para Araguari conseguiu sair do lugar em que se encontrava, à frente da casa paroquial.

Pior, no entanto, foi que na movimentação da despedida, enquanto se realizava a tentativa de impedir a viagem, ocorreu um fato que não fora programado pela “resistência”: um paroquiano foi assassinado por um seu desafeto. O luto caiu sobre a comunidade, pois, embora as provocações e as simulações de valentias fizessem parte da vida das sociedades interioranas, os atos violentos eram repugnados.

A decepção e a fuga

Padre Eustáquio, que durante toda sua estada em Romaria trabalhara no sentido de evitar qualquer violência e de sempre construir a paz e a concórdia, no sermão da missa de corpo presente, na manhã de 25 de janeiro, lamentou o assassinato.

Sua fisionomia estampava sua tristeza e sua decepção pelos fatos que culminaram com o falecimento do paroquiano que, de público, ele afirmara ser seu grande amigo. Porém, segundo padres e paroquianos presentes à celebração, a qualificação que privilegiava um paroquiano, teria sido simples estratégia que o padre usara para diminuir a pressão coletiva contra sua saída da paróquia. Ele sempre trabalhara pela construção da harmonia e da paz na comunidade de Romaria, que ele amava como pai.

Após o almoço, debaixo de forte sol, o padre, após ter passado por algumas casas para abençoar enfermos, a passos lentos e sozinho, foi subindo o Morro dos Marrecos. Pessoas que se encontravam nas proximidades do largo do santuário ou trabalhavam nos campos e garimpos próximos, juntaram esta imagem de tristeza àquelas do padre ágil e sempre bem disposto que, sob sol ou chuva, saía cavalgando, com rapidez e elegância, para todos os lados onde houvesse alguém que dele necessitasse.

Cerca de meia hora depois, levando dois padres, o “Ford 28” também subiu o morro. Depois da grande ladeira, emocionado, o Padre Eustáquio embarcou. Triste e sem dizer palavra, seguiu com seus confrades até o Colégio Regina Pacis, em Araguari, de onde, dias depois, viajou para São Paulo, a fim de cumprir sua nova missão, em campo novo que desconhecia.

A chegada em Poá

À sua chegada na capital paulista, Padre Eustáquio, sentindo saudades dos paroquianos e do ministério que deixara em Romaria, criou ânimo novo ao ler um dos boletins impressos que a Arquidiocese de São Paulo divulgara nas comunidades das paróquias e das capelas da região leste de São Paulo e no Alto Tietê.

Ele anunciava a chegada dos Padres da Congregação dos Sagrados Corações para assumirem a nova Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, em Poá. Entre outras informações ele estampava mensagem do Arcebispo Metropolitano, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva que, em uma de suas passagens, dizia:

“...Estão de parabéns as populações de Poá, Arujá e Itaquaque­cetuba. Os beneméritos Padres dos Sagrados Corações, que tantos benefícios têm espalhado por vastas plagas de nossa terra, virão consagrar esforços de seu zelo também a estas Ovelhas da Grei abençoada de Nosso Senhor.”

Primeiro pároco de Poá

A 15 de fevereiro de 1935, Monsenhor Ernesto de Paula, vigário geral da Arquidiocese de São Paulo e, alguns anos depois, primeiro bispo da diocese paulista de Piracicaba, o empossou como primeiro pároco da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, de Poá, que fora criada dias antes, a 11 de fevereiro. Além dela, também foram entregues à responsabilidade pastoral do Padre Eustáquio e seus confrades dos Sagrados Corações as comunidades de Arujá e Itaquaquecetuba, de Suzano e Santo Ângelo. Ao Padre Eustáquio, pessoalmente, coube também a função de confessor das comunidades das religiosas da Divina Providência em Vila Matilde e Itaquera, e das Carmelitas, em Mogi das Cruzes.

A igreja de Poá agradou ao Padre Eustáquio. Era espaçosa o suficiente para acolher, com conforto e dignidade, os paroquianos, pois fora construída com esmero e sem pressa, desde 1914. Sua inauguração ocorrera apenas a 14 de novembro de 1917, quando o Arcebispo Metropolitano autorizou que nela se celebrassem missas, com freqüência determinada.

O Arcebispo prometera que ela seria elevada a matriz de Poá, tão logo tivesse condições para acolher bem os fiéis, e a arquidiocese conseguisse padre para o atendimento regular deles. Por isso, embora ela tivesse ficado pronta em 1923, tornou-se sede de paróquia com a chegada e a posse do Padre Eustáquio, seu primeiro pároco, desde sua chegada considerado como autêntico dom de Deus à comunidade de Poá e a toda a Arquidiocese de São Paulo.

O pároco se encantou com Poá

Padre Eustáquio ficou encantado com a localização de sua igreja matriz, pois ela se projetava, com imponência, no alto do leve morro a cujo topo levava a rua comprida que começava à frente da estação ferroviária e se expandia, a perder de vista, no sentido longitudinal dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Pelos trilhos dessa ferrovia corriam as composições que iam e vinham do Rio de Janeiro, e também os trens suburbanos que faziam trajeto desde a cidade de São Paulo, a 34 quilômetros de Poá, até a cidade de Mogi das Cruzes, distante 17 quilômetros de Poá, então seu distrito.

Segundo Padre Eustáquio, que em Minas tinha que percorrer grandes distâncias, a cavalo e charretes, para conseguir atender a seus paroquianos, as distâncias que devia percorrer no cumprimento de sua missão, a partir de Poá, eram pequenas e os trens, confortáveis.

Uma comunidade em local bucólico

Poá, segundo sempre comentavam os muitos padres dos Sagrados Corações, que por lá passaram e lá também fundaram, construíram e geriram o “Reino da Garotada de Dom Bosco”, era um local bonito, bucólico e com água abundante e de qualidade excepcional.

A sede do distrito congregava cerca de três mil habitantes, que moravam em casas antigas e simples, construídas em fila, em ambos os lados, nas ruas do centro ou esparsas em chácaras onde cultivavam-se diversos tipos de verduras, legumes e frutas, com a finalidade de atender ao consumo da cidade de São Paulo.

O viço do verde da região não se assemelhava aos campos secos e às matas ralas que o padre se habituara a ver, em sua longa permanência no Triângulo Mineiro. No entanto, a incipiente urbanização de Poá e adjacências lembrava-lhe, com saudade, algumas cidades e certas regiões européias, de onde centenas de seus novos paroquianos vieram anteriormente, por motivos de colonização, e continuavam chegando, muitos em fuga da violenta guerra que assolava quase toda a Europa.

Trabalhadores que madrugavam

Quando Padre Eustáquio chegou, ele estranhou que o ponto de encontro ou de concentração dos moradores, transeuntes e visitantes não era a praça da igreja matriz, mas as imediações da estação ferroviária. Além disso, percebeu que as concentrações se efetuavam de acordo com os muitos horários dos trens de passageiros e ou de cargas. Sua freqüência ia das quatro horas da madrugada – quando os produtores rurais chegavam à estação da Central do Brasil para transportar, de trem, os gêneros alimentícios até o Mercado Central de São Paulo – até à meia noite, quando da chegada e da partida do último trem. Apenas depois desse horário seguiam-se quatro horas de silêncio profundo na região central da comunidade de trabalhadores.

Experiente, o pároco de imediato concluiu que para cumprir sua missão pastoral, com qualidade, precisava mudar seus hábitos, adaptar-se às novas realidades e planejar estratégias viáveis que atendessem, de fato, às necessidades de seus paroquianos. Pediu as luzes de Deus e aconselhou-se com padres da região, pois sobre ele pesava a responsabilidade de ser o primeiro pároco de uma comunidade com outras características que as da população da pequena Romaria e de outras localidades em que trabalhara.

Sentiu dificuldades. Convenceu-se de que os sinos da igreja pouco diriam aos trabalhadores que, todos os dias, tinham que tomar o trem na madrugada fria da região e viajar para ganhar seu sustento e o de suas famílias.

Embora os exemplares moradores de Poá tivessem construído bela igreja e, com a chegada dos padres dos Sagrados Corações, passassem a ter assistência espiritual permanente, continuariam chegando do trabalho apenas à noite e, certamente, cansados. Os poaenses tinham o hábito de recolher-se o mais cedo que pudessem para dormir poucas e insuficientes horas que lhes permitissem recuperar suas energias a fim de, no dia seguinte, viverem a mesma rotina de todos os dias úteis.

Descobriu novas estratégias

Padre Eustáquio não ficou à espera dos trabalhadores e suas famílias na matriz. Semanalmente, desde sua posse, passou a visitar todos os núcleos paroquiais, grandes e pequenos, distantes ou próximos da matriz ou das capelas. Dedicou-se a incentivar as diversas lideranças locais, pregando, celebrando missas, administrando sacramentos, acompanhando e estimulando as associações religiosas existentes. Em uma segunda etapa, fundou a Obra da Entronização nos Lares, com a consagração das famílias aos Sagrados Corações, a Adoração Noturna em Família, a Liga dos Tarcísios e Benjamins, a Cruzada Eucarística, o Apostolado da Oração, a Pia União das Filhas de Maria, a Congregação Mariana, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Obra das Vocações Sacerdotais, a Liga de Santa Terezinha, o Apostolado pelo Sofrimento.

Por congregarem muita gente compromissada com os trabalhos comunitários e com disposição de colaborar com o progresso, desde o início todas essas entidades se demonstraram operosas no apostolado e incentivadoras da espiritualidade em todas as paróquias e nas quinze capelas sob responsabilidade pastoral do Padre Eustáquio e seus confrades.

Métodos inteligentes de santo

Padre Eustáquio sempre viveu buscando o modelo perfeito da caridade e da justiça. Jamais cedia em suas convicções católicas nem em sua filosofia humanista. Também, por trabalhar preventivamente contra os perigos de desvios e abusos em termos de fé e de moral, desde que assumiu a paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, em seus sermões e contatos pessoais, nas reuniões de associações e visitas domiciliares, alertava os católicos contra os perigos do espiritismo.

Atacar a doutrina e seus seguidores seria atitude negativa, pois os colocaria em maior afastamento da verdade cristã. Porque o espiritismo era muito forte em Poá e adjacências, o padre optou por reforçar o ensino da doutrina cristã. Instituiu o catecismo paroquial regular e começou a lecionar Religião no Grupo Escolar de Poá, onde, já no próprio ano de 1935, tornou-se professor contratado. Sua atitude assegurou, na escola pública, tanto o ensino doutrinal católico como a orientação moral das crianças e dos jovens.

Padre Eustáquio adotava um procedimento pastoral muito avançado para a época, pois tinha por princípio que antes de se procurar converter as pessoas, devia-se dialogar e dar o bom exemplo a fim de convencê-las.

A gruta de Nossa Senhora

A fim de divulgar a devoção à Nossa Senhora de Lourdes, já em seu segundo mês em Poá, no espaço entre a casa paroquial e a igreja, com suas próprias mãos, ele construiu uma gruta, à imitação de outras do gênero. Essa manifestação de piedade, além de alegrar os fiéis, começou a atrair até mesmo pessoas que não freqüentavam as celebrações rituais católicas, nem se diziam católicas.

Desde a inauguração da gruta, com satisfação e piedade e recolhimento, os paroquianos passaram a reunir-se diante dela a fim de rezar junto à imagem de Nossa Senhora. Nos meses de outubro e maio, Padre Eustáquio ou outro padre presidia a reza do terço, orientando a meditação dos mistérios e intercalando as dezenas com cânticos em louvor à Nossa Senhora.

A repetição de tais atos de piedade passou a atrair números cada vez mais elevados de católicos e se transformou em meio de aprofundamento da espiritualidade e do sentido prático de comunidade paroquial. Desse senso de responsabilidade comunitária surgiram os estímulos que, já em 1937, levaram os paroquianos à restauração da igreja e à construção de nova e espaçosa casa paroquial, posteriormente transformada em colégio.

Padre Eustáquio que se acostumara a trabalhar muito, mas sempre seguindo o ritmo lento e cadenciado do interior, em Poá entrou na cadência acelerada dos paulistas, eficientes e rápidos como ele mesmo era e gostava de ser. Para atender às demandas crescentes, preservando as prioridades, ele, seu vigário paroquial e seus auxiliares adotaram cronogramas, que determinavam desde os horários de trabalho burocrático até o atendimento marcado a um enfermo ou necessitado, tanto nos limites da paróquia como fora dela.

A água trazida de Lourdes

Após dez anos sem férias, em dezembro de 1925, Padre Eustáquio viajou à Holanda a fim de visitar seus familiares e realizar atualização pastoral. A 26 de julho do ano seguinte retornou a Poá. Entre as doações que arrecadara para as obras paroquiais, de sua peregrinação a Lourdes, trouxe, com cuidado e devoção, um garrafão com água da gruta de Massabièlle, onde no período de 11 de fevereiro a 16 de julho de 1858, Bernadete Soubirous, jovem de 14 anos, tivera aparições de Nossa Senhora que,vestida de branco, revelou-lhe que era a “Imaculada Conceição”.

Convencido de que essa água produzia efeitos especiais para a alma e para o corpo das pessoas que, arrependidas de seus desacertos, se dispunham a repará-los e viver na graça de Deus, Padre Eustáquio, testemunhando sua fé, esvaziou o pequeno reservatório da gruta e nele colocou um pouco de água que trouxera da França. Nele, de forma regular e periódica, adicionava água comum, sempre em quantidade menor do que a metade do líquido que se acumulava na caixa do reservatório.

Ninguém o contestou por utilizar esse sistema que, embora causasse estranheza, era prática bastante comum entre eclesiásticos. Preocupado em não deturpar o simbolismo da água oriunda de Lourdes, ele tomava o cuidado de repetir a operação, todos os dias, às vezes mais de uma vez.

Significativo número de católicos começou usar da água para curar-se de seus males físicos. De repente, pequenas peregrinações de paroquianos e vizinhos começaram visitar a gruta e, em gratidão pelas graças alcançadas, passaram a relatá-las como milagres ou curas. Aos poucos, a divulgação espontânea transformou-se em convite a todos quantos procuravam receber graças e favores extraordinários.

Início das bênçãos milagrosas

Seus confrades, embora o reconhecessem carismático, alertaram-no sobre a possibilidade de pessoas mal-intencionadas deturparem seus objetivos pastorais e passarem à prática de crendices, usando a água da gruta. Ele os ouviu com atenção e respeito, e lhes disse que também estava apreensivo com o aumento do número de fiéis que usavam a água da gruta e, em especial, com aqueles que, além de levarem a água para suas casas, expressavam sua crença em gestos ou ritos não oficiais da Igreja.

Não pretendia alimentar formas de devoção espontâneas, mas também não sabia como impedi-las, pois em outros santuários, inclusive em Lourdes, pessoas usavam formas diversas para revelar sua crença na força intercessora da Virgem Maria.

A procura da água era tamanha que, por duas vezes, ela faltou no reservatório e ele teve que repetir a demorada operação inicial a fim de não frustrar a devoção que ele mesmo desencadeara. Repreendido por seus confrades, passou a benzer a água do reservatório da gruta, diariamente, usando as mesmas preces rituais que a Igreja Romana usava para abençoar a água que era colocada nas pequenas pias, à entrada da igreja para que os fiéis, ao entrarem e ao sair dela, fizessem o sinal da cruz, segundo o costume católico.

A eficácia da água do padre

De repente os usuários da água que Padre Eustáquio benzia com o rito normal passaram a considerá-la mais eficaz que a outra, que ele trouxera. De conversa em conversa, aumentaram a procura e o consumo, obrigando o padre a benzê-la no reservatório, todos os dias, pela manhã e à tarde. Mas, como os fiéis esgotassem até mesmo a água das pequenas pias de água benta, à entrada da igreja, ele passou a benzer também a água em garrafas e outros vasilhames que os fiéis traziam de suas casas.

O passo seguinte não foi o aumento da água para o consumo, mas a chegada, em grande e crescente número, de mulheres e homens aflitos e enfermos, pedindo-lhe que os abençoasse para se curarem de seus males, que os aconselhasse de modo particularizado e os ouvisse em confissão.

O padre que em Romaria se manifestara apenas como pároco exemplar e piedoso, e diretor espiritual prudente e sábio, inquietou-se ao ser procurado e reconhecido, em Poá, como dotado de dons especiais de serenar os espíritos, elevar as intenções das pessoas e curá-las também de enfermidades físicas e espirituais.

Padre Eustáquio ou Frei Eustáquio – como também o povo o chamava, por causa do hábito branco e de estilo monacal que os religiosos da Congregação dos Sagrados Corações usavam – não tinha como negar-se a revelar que Deus o escolhera e chamara para entregar-se de corpo e alma à missão de transmitir luz, coragem e força, saúde e paz a todos quantos dele se aproximassem em nome de Deus.

Os outros padres da paróquia, a fim de evitar que a área entre a igreja e a casa paroquial passasse a funcionar como “pátio de milagres” ou local de concentração de fiéis, sugeriram que Padre Eustáquio construísse novo reservatório, com maior capacidade de armazenamento de água e nele instalasse maior número de torneiras, que foram distribuídas em linha, através de um cano que se estendia por toda a frente da gruta. Tomada de imediato, a providência dispensou a necessidade de se benzer a água do reservatório todos os dias e os fiéis se livraram dos incômodos de terem que enfrentar chuva e sol, nas longas e lentas filas, a fim de pegarem água abençoada pelo Padre Eustáquio.

Reconhecia-se chamado para servir

Em fevereiro de 1939, pronta a reforma e a ampliação da gruta, solucionados os problemas da água e o ruidoso afluxo constante dos fiéis, os vigários paroquiais aconselharam que o Padre Eustáquio saísse mais vezes de Poá, a fim de dedicar mais tempo aos fiéis nas comunidades das capelas de Arujá, Itaquaquecetuba, Suzano, Santo Ângelo e Ferraz de Vasconcelos, todas anexadas à paróquia de Poá. Também instaram-no a visitar mais as outras paróquias, em especial as confiadas aos cuidados da Congregação.

Ele acatou bem os conselhos e passou a visitar mais também os conventos religiosos da cidade de São Paulo e das redondezas, a estabelecer contatos sociais e fraternos com outros sacerdotes, além de freqüentar mais amiúde paróquias vizinhas e pregar os retiros para os quais era convidado.

Na realidade, ninguém sabia explicar o que acontecia com o Padre Eustáquio. Ele passava o dia trabalhando em Poá e nas demais comunidades cuja pastoral lhe competia exercer. À noite, de carro ou de trem, dirigia-se a São Paulo ou a Mogi das Cruzes a fim de atender os fiéis distribuindo-lhes os dons de conselho e perdão, de saúde e paz dos quais, mais do que qualquer outra pessoa ele se reconhecia portador.

Era uma criatura edificante, pois se mantinha simples, humilde e puro, mesmo reconhecendo que Deus o dotara de missão diferenciada,especial. Por ter consciência de que era chamado a servir e a imolar-se por seu rebanho, mesmo cansado, jamais deixou de fazer visitas domiciliares aos enfermos e famílias necessitadas. Também, raramente deixou de ministrar pessoalmente as aulas de Religião no Grupo Escolar em Poá.

Apesar de tão procurado e estar sempre ocupado em diferentes afazeres, com satisfação e piedade, organizava e acompanhava seus paroquianos em romarias à Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida, pois fazia questão de vivenciar com eles o sentido da oração e da penitência para o perdão dos pecados.

Na atual diocese de São Miguel Paulista

Difundia com entusiasmo contagiante, a vida e as obras da Congregação dos Sagrados Corações, explicando como sua espiritualidade se voltava às pessoas e ao mundo, valorizando a família e sua inserção na Igreja doméstica e universal, através de ações simples, porém de grande profundidade, como a Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento; a Consagração das Famílias, através da Obra da Entronização dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, a Adoração Noturna no Lar e o Apostolado pelo Sofrimento.

Desde 1936, assumiu também trabalhos sistemáticos nos bairros paulistanos de Itaquera e de São Miguel Paulista, nos quais semanalmente atendia os fiéis, também depois que a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo de Itaquera se tornou residência de atuante comunidade autônoma dos Padres da Congregação dos Sagrados Corações, que nela exerceram eficientes trabalhos pastorais, de 1938 a 1947.

A comunidade de Itaquera, sob a orientação e com os estímulos do Padre Eustáquio, com zelo e perseverança, atendia a população de toda a área em que, atualmente, estão os setores pastorais de Artur Alvim, A. E. Carvalho, Cidade Líder, Cidade Tiradentes, Guaianases, Itaquera e São Miguel, todos da Diocese de São Miguel Paulista, criada em 1989 e, atualmente, com cerca de 80 paróquias.

Além de suas atribuições paroquiais pessoais, Padre Eustáquio exercia a coordenação oficiosa das comunidades de sua Congregação que exerciam a pastoral nas paróquias de Itaquera e Vila Prudente, na arquidiocese de São Paulo, e nas paróquias de Taquaritinga e Itajobi, na diocese de São Carlos, na zona cafeeira de Araraquara.

Na transformação industrial

Padre Eustáquio e os padres dos Sagrados Corações, em virtude de sua espiritualidade fundamentada na simplicidade e na solidariedade, integravam-se sem dificuldades no grupos e comunidades caracterizados pela participação de cidadãos provenientes ou descendentes de imigrantes de diversos países europeus, que formaram importantes colônias em São Paulo.

Como bem formados e atualizados, exerceram papel de grande relevância social e política para que se efetivassem, sem traumas, as rápidas e sucessivas etapas da transição da fase de economia rural para a de economia industrial, em especial, nas regiões de Poá, Ferraz de Vasconcelos e Arujá, de Itaquera, São Miguel Paulista e Vila Prudente.

Movidos por sua vocação de dedicar-se ao desenvolvimento integral das famílias, cuidaram da constante e diferenciada assistência aos trabalhadores, tanto aos que exerciam atividades agrícolas ou rurais como aos que desenvolviam trabalhos de natureza urbana ou industrial.

Sua espiritualidade foi reconhecido fator de equilíbrio na fundação e no desenvolvimento dos Círculos Operários e de outros operosos grupos de Ação Católica nos quais a Arquidiocese de São Paulo apoiava seus trabalhos de formação de lideranças gerais e específicas.

Na região leste da cidade de São Paulo muitas famílias viviam da média produção agrícola diversificada e da produção dos artefatos produzidos da areia branca extraída do rio Tietê, principalmente as telhas e os tijolos que, por muitos anos, garantiram a boa qualidade do material usado pela construção civil regional.

Embora nesse tempo, mesmo bons católicos dissessem que a Igreja deveria tratar apenas de religião, os padres dos Sagrados Corações e também padres diocesanos que trabalhavam na região, animados pelo mesmo Espírito que movia o Padre Eustáquio a exercer o dom do conselho, orientavam as famílias e os trabalhadores de suas paróquias. Ajudaram-nos a se adaptarem à realidade industrial que se implantava, definitivamente, em especial com a implantação e o funcionamento da Companhia Nitro Química e de outras grandes companhias do segundo setor, que se tornaram responsáveis pela prosperidade da atual Região Metropolitana de São Paulo.

A porta da igreja de São Miguel Paulista

Embora experiente na administração da construção de igrejas, salões e casas paroquiais, em 1939, Padre Eustáquio deu um conselho, que lhe trouxe conseqüências inesperadas.

Seu confrade, Padre Inácio Vermeulen, que era o pároco de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, recebera irrecusável proposta financeira pela venda da porta maciça e pesada da capela de São Miguel Arcanjo, no bairro paulistano de São Miguel Paulista.

Novo no Brasil, pouco familiarizado com a cultura nacional e sem conhecimentos a respeito das origens daquele templo rústico, de paredes de taipa de pilão e com porta tão valiosa, o padre Inácio, sem entender por que era alto o valor financeiro daquela porta, consultou o Padre Eustáquio que, além de conhecedor dos preços do comércio, era seu superior.

Com aprovação dele, padre Inácio fechou o negócio e com o dinheiro recebido comprou outra porta nova, mais leve e mais vistosa e, a seguir, faria alguns reparos urgentes na capela que, mesmo tendo sido construída em 1662, acolhia 200 fiéis em cada celebração. Nenhum dos dois padres sabia que, desde o ano anterior, aquela capela se encontrava sob tutela do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Dias depois, o arcebispo de São Paulo, informado da venda, convocou Padre Eustáquio para uma conversa durante a qual passou-lhe as informações elementares a respeito a evangelização jesuítica no Alto Tietê e sobre a cultura dos índios da tribo dos guaianases, que desapareceram da região após a expulsão dos jesuítas.

Em seguida, ordenou-lhe tomasse todas as providências para a recuperação da peça que fora vendida, pois ela pertencia ao acervo da antiga aldeia indígena de Ururaí, que os jesuítas passaram a chamar de São Miguel do Ururaí e, em tempos mais recentes, São Miguel Paulista.

A repreensão foi amena, porém sem concessões por parte do prelado, nem desculpas da parte do padre que voltou para sua casa, em Poá. Ficara aborrecido por ter aconselhado mal seu confrade e envergonhado porque não imaginava que colocara em risco parte do patrimônio histórico brasileiro.

À noite, após relatar a seus confrades a reunião com Dom José Gaspar e repetir-lhes o teor da reprimenda que este lhe passou, aliviado, concluiu:

“Tive muita sorte, porque o problema foi a porta. Eu corri o risco de ser excomungado, pois várias vezes pensei em derrubar aquela igreja velha ou, pelo menos, reformá-la.”

A voz e a vez do povo

Nem o Padre Eustáquio nem seus confrades avaliaram objetivamente o que a opinião pública dizia e pensava a respeito de variados casos de curas que se sucediam após as bênçãos do Padre Eustáquio e com o uso que as pessoas faziam da água da gruta, cuja fama de milagrosa ou curativa era cada vez mais comentada e se expandia sempre mais, muito além das regiões de São Paulo e Mogi das Cruzes.

A sala de expediente da casa paroquial tornou-se pequena para comportar o número sempre crescente de fiéis. O atendimento para bênçãos e entrevistas passou a realizar-se no salão paroquial, conhecido como Sede da Congregação Mariana, em clima de respeito e calma, que permitia às pessoas rezarem individual e coletivamente, sem presença de curiosos ou de visitantes inoportunos.

No entanto, de forma inesperada, começou a avolumar-se muito o número de fiéis que entregavam bilhetinhos com pedidos de bênção e orações, além dos muitos que desejavam levar consigo alguma lembrança ou objeto abençoado pelo Padre Eustáquio, já considerado santo e milagroso.

Os grupos se desenvolvem com rapidez

Para atender essa demanda sem sacrificar a paróquia nem deixar de cumprir seus deveres pessoais, Padre Eustáquio obteve a ajuda permanente de um terceiro vigário paroquial, cuja chegada permitiu-lhe delegar ao padre Guido Logger a responsabilidade escrever cerca de 150 cartas diárias, com pedidos de bênçãos, conselhos e também de lembranças.

Se alguém pensa que Padre Eustáquio delegou a seu confrade a responsabilidade pelo conteúdo, engana-se, pois o próprio Padre Guido assim depôs no Processo de Beatificação:

“Quando se tratava de necessidades de alma, eu escrevia os conselhos que ele me ditava e quando se dava um caso mais pungente, uma suprema necessidade de alma, aí ele mesmo, de próprio punho, escrevia algumas palavras de consolo, de conforto e cheias de conselhos sábios.”

Idealizador do Seminário Cristo Rei

Padre Eustáquio embora atendendo, diariamente, centenas de pessoas, coordenava todas as ações sob sua responsabilidade, até mesmo os projetos e as campanhas iniciais destinadas à construção do primeiro prédio que acolheu a comunidade religiosa e os primeiros seminaristas da Congregação dos Sagrados Corações, em Ferraz de Vasconcelos, então subdistrito de Poá.

Ele pensava em tudo e em todos, exceto em si mesmo. Parecia não sentir necessidade de bens materiais. Sua alimentação era frugal e rápida, embora insistisse com seus confrades para que se alimentassem bem a fim de não sucumbirem a enfermidades, nem caírem no erro de expor suas vidas a risco por causa de negligência. Ele, no entanto, por penitência e mortificação, não ia além do indispensável para manter-se capaz de dedicar-se às atividades de sua obrigação.

O espiritismo era sólido em Poá

O espiritismo encontrava-se solidamente estabelecido nos aproximados 750 quilômetros quadrados do território sob os cuidados pastorais do pároco de Nossa Senhora de Lourdes de Poá e de seus vigários paroquiais.

Como a maioria dos dirigentes espíritas e dos eclesiásticos católicos, os padres de Poá, além de se demonstrarem firmes em suas posições, eram radicais na defesa de suas convicções e nas tomadas de posições públicas e ações de proteção oficial aos seus grupamentos de fiéis.

Poá era um reduto importante do espiritismo em São Paulo, mas nem por isso Padre Eustáquio passou de seus procedimentos equilibrados a qualquer atitude de retaliação ou de ataques pessoais. No entanto demonstrou-se sempre firme em suas posições e defendeu-se contra os que o acusavam de ser espírita com argumentos sólidos e irrefutáveis de que no exercício dos dons que Deus lhe dera, ele usava apenas o que era de uso normal da própria Igreja Católica.

Multidões em busca de saúde e paz

Não era sem motivos que os fiéis chegavam de trens, ônibus ou automóveis e dirigiam-se ao largo da igreja, onde, desde as primeiras horas da manhã, se concentravam, em recolhimento e orações, à espera do momento do encontro com o Padre Eustáquio.

Fora de lá, nos dois lados da pista de rolamento em quase toda a extensão da rua principal, formavam-se duas filas de automóveis com enfermos incapazes de se locomoverem e acompanhados de seus parentes e amigos, à espera dele. Todos sabiam que, duas vezes ao dia, com piedade, muita calma e carinhosamente, o padre passaria pela rua, abençoando-os um a um, em cada veículo.

Muitos doentes pobres e muitos idosos esperavam-no estirados ou sentados entre os carros, por não possuírem cadeiras de rodas nem quem os auxiliasse a chegar à praça para serem atendidos. Também quase todos os dias, grande número de pessoas enfermas ou portadores de necessidades especiais, postavam-se à espera dele à frente da igreja, estendidas no chão ou em macas.

O movimento ficou insustentável, pois Poá não tinha estrutura para receber tanta gente. De hora em hora Padre Eustáquio aparecia em uma das janelas da casa paroquial, de frente para a rua. Nas mãos dos populares, nos tetos dos carros, sobre as cabines e nas carrocerias dos caminhões apareciam milhares de garrafas, litros e garrafões com água para ser abençoada.

Ele pegava o microfone, sorria, abanava a cabeça em sinal de aprovação e, seguindo sempre o mesmo rito, enaltecia a fé católica e suas manifestações, acentuando o valor das devoções a Nossa Senhora e São José e condenando o espiritismo como doutrina perigosa e contrária à vontade de Deus. Sempre concluía seus sermões com o seguinte conselho, seguido do convite:

“Tenham fé e confiança! Deus é grande!... Agora, vamos benzer as águas.”

Todos os dias, nas filas dos que tinham senhas para atendimento individual e particular, era grande o número de paralíticos, cegos, surdos e mudos, oligofrênicos e encefalopatas, além daqueles cujas enfermidades poderiam apresentar ou sugerir perigo de contágio.

Espiritualidade penitente

Se para os que precisam do público para atingir seus interesses pessoais ser procurado por muitas pessoas significava prestígio pessoal, para o Padre Eustáquio era apenas uma pesada missão que, por vocação, ele cumpria com amor. Preocupava-se com as pessoas que ficavam à sua espera, pois sabia que sua forma individualizada de fazer os atendimentos lhes acarretava diversos incômodos.

Mas ele ficava com a alma em paz, vivia como ensinara o Padre José Maria Pedro Coudrin, fundador de sua Congregação:

“Para mim o trabalho, para o próximo a utilidade e para os Sagrados corações de Jesus e Maria toda honra e toda glória.”

Apesar de atender multidões, ele não deixava de fazer sua adoração diária ao Santíssimo Sacramento; não se omitia de rezar o breviário, todos os dias. Mesmo exausto, após ter passado o dia todo em atendimentos pesados, sempre fazia sua hora de adoração noturna semanal. A adoração perpétua do Santíssimo Sacramento consta dos atos de piedade penitencial originais da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.

Geralmente, quando saía para abençoar em outras cidades, retornava a Poá, por volta de vinte e três horas; lia rapidamente os jornais e, quando encontrava algum de seus confrades acordado à sua espera, mandava-o repousar, argumentando que os jovens necessitavam dormir bem para poderem viver mais e melhor.

Em São Paulo costumava atender as pessoas que o procuravam onde ele estivesse, tanto em igrejas ou conventos, como em colégios e hospitais, e mesmo nas ruas. Ficava tão absorvido e cansado que uma noite assustou-se quando, ao chegar em casa, em Poá, seus confrades começaram a rir dele, pois alguém havia cortado a parte posterior do grande escapulário que compunha seu hábito religioso. Ele, que nada havia percebido, também começou a rir.

Insistia para que a comunidade dormisse cedo e bem, pois todos os padres precisavam estar de pé antes do alvorecer, quando os fiéis começavam a chegar e o som alto de suas preces e conversas não permitiam que alguém dormisse um pouco mais.

Padre Eustáquio sempre se recolhia tarde, quase à meia noite, mas nem sempre se deitava na cama. Costumava dormitar numa cadeira incômoda que tinha em seu quarto, ou estirado no chão duro a fim de penitenciar-se e para lembrar-se de que precisava resistir à vaidade, ao orgulho e à concupiscência da carne.

Não bastasse essa penitência e o peso de seu trabalho diário, um de seus confrades um dia percebeu que, sob o hábito religioso, ele se cingia de um cinto de penitência feito de couro, que ele colocava muito apertado. Quando de sua morte, ele também estava cingido de um cinto de couro que, de tão apertado, havia aderido à sua carne.

Poá se torna local de milagres

Nos primeiros meses de 1941, os níveis de aglomeração popular encontravam-se a ponto de causar pânico: Poá chegara à beira do colapso total, em especial depois que os jornais e as emissoras de rádio da capital, do estado São Paulo e de outros estados passaram a noticiar, todos os dias, fatos referentes às bênçãos do Padre Eustáquio, acentuando descrições de seguidas curas consideradas extraordinárias.

Os jornais talvez pudessem exagerar, mas, de fato, os noticiários da guerra que se desenrolava na Europa e os das ações do Pároco de Poá ou do Frei Eustáquio, como também o chamavam, equiparavam-se como temas preferidos e diariamente tratados com o mesmo impacto. Porém a diferença entre eles era essencial: enquanto a violência da guerra destruía e matava milhões, a bondade e a dedicação do padre convidavam as pessoas à fé, estimulando nelas o amor e a esperança; o encontro com a saúde e com a paz.

Padre Eustáquio, para lembrar-se sempre da conveniência de desenvolver ou alimentar sua vida espiritual, onde ele estivesse, sempre tinha consigo pensamentos de paz, de fé, esperança e de caridade, escritos no verso de santinhos, fotos e cartões que guardava entre as páginas dos livros de orações que costumava ter consigo, mesmo quando atendia multidões.

Dentre eles, como exemplos:

“Se queres a paz no coração, não lamentes de mal algum nem do tempo.”; “Não penses de outrem coisas que não conhece.”; “Não compares tua sorte com a dos outros.”; “Nas coisas futuras sobre as quais não sabes como deverás agir, pense que Deus dará providência.”

Fé, comércio e pesadelo

Perante a superlotação de suas composições nos horários normais, a Estrada de Ferro Central do Brasil criou horários extras e maior número de carros em suas composições. As ruas e as estradas que davam acesso a Poá passaram a ter seu movimento de carros e caminhões conduzindo devotos aumentado a cada dia. Em Poá, homens e mulheres doentes misturavam-se aos sadios; aos peregrinos de verdade juntavam-se os larápios. A população de Poá entrou em estado de exaustão, não pelas ações do padre, mas porque não tinha mais condições de suportar por mais tempo as multidões e os prejuízos que elas lhe causavam

Muitas pessoas aproveitaram-se do afluxo para venderem refrigerantes, salgados, doces e também bebidas mais fortes, a preços muito elevados. Uma garrafa vazia passou a ter preço exorbitante para quem dela necessitava a fim de colocar água para que o Padre Eustáquio a benzesse. Uma rolha tinha custo extra, da mesma forma que as garrafas, quando vendidas cheias com água para ser abençoada. Quem queria eximir-se das longas filas para chegar às torneiras que jorravam água da gruta ou que por algum motivo grave delas não conseguia se aproximar, pagava caro.

Poá vivia clima de pesadelo. Havia até cambistas que pegavam os cartões numerados gratuitos para atendimento e os vendiam aos necessitados, a preços extorsivos. Em verdade, ocorriam edificantes manifestações de fé e registros de fatos que maravilhavam. Porém, em Poá o equilíbrio e a segurança entraram em colapso, como o ilustram as seguintes das muitas manchetes que os jornais publicavam:

Há um padre em Poá, fazendo milagres; Romeiros de todas as partes procuram a fonte dos milagres; Os milagres atribuídos ao sacerdote de Poá; Dez mil pessoas visitaram domingo o pequeno distrito da Central do Brasil; O Poder da Sugestão; Romeiros até do Ceará; O Milagre pertence a Deus; Muita miséria e poucos recursos; O santo de Poá continua realizando curas milagrosas.Paralítica de Sorocaba conta à reportagem como foi curada por Frei Eustáquio; Milagrosamente curado o Dr. Tavares, conhecido médico sorocabano; Romeiros da esperança; Até a muda falou; O santo de Poá faz sensacional milagre; Salvo da morte pelo santo de Poá; É preciso ordem em Poá; Perigosos ladrões agindo em Poá.

Posições dos noticiários e das autoridades

Os noticiários funcionavam como relatos para o público e chamadas de atenção para os jornalistas, as autoridade policiais, religiosas e eclesiásticas que desejavam atitudes capazes de salvar os poaenses dos transtornos que as aglomerações lhes causavam.

As autoridades encarregadas da manutenção da ordem social de nada incriminavam o padre, mas induziram os superiores da Congregação dos Sagrados Corações e o arcebispo metropolitano a removê-lo da paróquia da Nossa Senhora de Lourdes como único meio capaz de permitir que Poá e a região retornassem à normalidade de vida.

Porém houve também quem acusou o padre de suscitar os movimentos para vangloriar-se e o teria afirmado perante o próprio arcebispo de São Paulo que o contestou, com energia, diante dos cônegos do próprio Cabido Metropolitano:

“Nada disso. Conheço bem Padre Eustáquio e sei quais são as suas intenções.”

Dom Ernesto de Paula, à época Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo, e que presidira sindicância oficiais a respeito das atividades do Padre Eustáquio em Poá, afirmou como testemunha no Processo de Beatificação que “...a cúria de São Paulo pôde verificar que, na realidade, ele era um modelo de sacerdote, um autêntico homem de Deus, cheio de zelo pelas almas, senhor de uma caridade sem limites, de uma mansidão extraordinária e, sobretudo, de uma obediência sem restrições”.

Arcebispo queria o padre em Vila Prudente

Dom José Gaspar, mesmo tendo de afastar o padre de Poá, fazia questão de mantê-lo em exercício ministerial na Arquidiocese de São Paulo. Sugeriu que ele permanecesse na comunidade dos Padres dos Sagrados Corações que, desde 1939, regiam a paróquia de Santo Emídio, em Vila Prudente.

No bairro havia uma fábrica desativada que tinha um galpão muito amplo, bastante água e instalações hidráulicas de boa qualidade. Nesse local, que atualmente pertence ao Círculo Operário de Vila Prudente, o padre teria boas condições de receber e atender os fiéis para confissões, conselhos e bênçãos. Com educação e muito respeitosamente, Padre Eustáquio respondeu-lhe que agradecia o carinho e a compreensão.

Abatido, com olheiras e pálido, a 13 de maio de 1941, deixou Poá, sem qualquer comunicado aos paroquianos e sem se despedir de seus mais íntimos colaboradores.

Ele sabia que sua saída era definitiva, embora seus superiores lhe dissessem que ele se afastaria de lá apenas por uns meses para que as aglomerações terminassem. Depois de um tempo de descanso, ele retornaria para trabalhar em ritmo mais leve, para que exercesse um ministério paroquial nos moldes normais como acontecia com outros bons párocos.

Padre Eustáquio se consolava com a certeza de que era verdadeiro o que sempre ensinara aos outros:

“Nosso Senhor sabe de tudo. Deixem-no agir. Tenham confiança em Deus... Ele é muito bom Pai. Ele providenciará tudo direito, conforme sua vontade.”

Obediente de verdade

Fora de Poá ele se sentia como um condenado, pois embora fosse livre, vivia sob custódia. Até estava proibido de visitar amigos e de sair das casas da Congregação, sem licença explícita do superior local. Situação difícil e, sem dúvida, humilhante. Mas, como religioso que vivia em busca da perfeição, Padre Eustáquio a vivenciou, obedecendo sem esboçar sinal de ressentimento nem de rebeldia.

Nos primeiros dias após sua saída de Poá, ficou oculto na paróquia de Santo Emídio, em Vila Prudente e celebrou missas apenas em conventos de religiosas. Mesmo assim, apesar de toda a discrição e cuidados, algumas pessoas o reconheceram na rua. Sem o querer ele se tornara uma personalidade pública, pois, quase que diariamente tinha sua fotografia estampada em algum jornal.

Então, para não aparecer ao público, conforme lhe fora ordenado e, ao mesmo tempo, para dedicar-se ao atendimento dos enfermos internados em sanatórios, passou alguns dias em Campos do Jordão. Porém, notando que pessoas que não eram internas nos sanatórios e nem se encontravam em tratamento de saúde o procuravam, desceu a serra e ficou dois dias em Mogi das Cruzes visitando alguns conhecidos e amigos doentes, com os quais não estivera em seus últimos meses em Poá.

A história continua no site http://www.padreeustaquio.com/historia.asp, lá são encontradas fotos, orações e tudo sobre a sua beatificação.

Tentamos reunir aqui os trechos do importante período que este ilustre beato viveu em nossa cidade.

Padre Eustáquio afirmava que sua vocação era “Amar e fazer amar a Deus”.

 

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